Dor na lateral do tornozelo - Dr. Daniel Baumfeld

Dor no tornozelo ao correr: o que pode ser e como evitar

A dor no tornozelo ao correr costuma vir de entorse mal recuperada, instabilidade crônica, tendinite do Aquiles, dos fibulares ou do tibial posterior, fratura por estresse ou impacto anterior. Dor que piora a cada treino, aparece em ponto fixo do osso ou dura mais de duas semanas precisa de avaliação.

Na corrida, o tornozelo recebe a cada passada um impacto de duas a três vezes o peso do corpo. Em um treino de 5 km, isso se repete milhares de vezes. Por isso, pequenos problemas que não incomodam no dia a dia, como um ligamento frouxo de uma torção antiga ou um tendão já irritado, aparecem justamente quando a pessoa corre.

O lugar exato da dor, o momento em que ela surge (no início, durante ou depois do treino) e a presença de inchaço ajudam a separar uma causa da outra. Na maioria dos casos, o problema melhora com ajuste do treino e fisioterapia, sem cirurgia.

Corredora parada na pista, inclinada para a frente e segurando a perna com dor

Principais causas de dor no tornozelo ao correr

Entorse de tornozelo

A entorse acontece quando o pé vira, quase sempre para dentro, e os ligamentos do lado de fora do tornozelo esticam além do limite. Em corredores, é comum em trilhas, calçadas irregulares e buracos. A dor aparece na hora, na frente e embaixo do osso de fora do tornozelo, com inchaço e roxo nos dias seguintes. Veja os sintomas de entorse e como ela é dividida em tipos e graus.

O erro mais frequente é voltar a correr assim que a dor some, antes de recuperar força e equilíbrio. O tornozelo fica mais sujeito a uma nova torção.

Instabilidade crônica do tornozelo

De 20% a 40% das pessoas que torcem o tornozelo continuam com a sensação de que ele “falseia” meses depois. O ligamento cicatrizou alongado e não segura mais a articulação. O corredor torce o pé com facilidade, evita terreno irregular e sente dor e inchaço depois dos treinos. Entenda como é tratada a instabilidade crônica do tornozelo.

Tendinite do tendão de Aquiles

É uma das lesões mais comuns da corrida. A dor fica atrás do tornozelo, no tendão que liga a panturrilha ao calcanhar. Um padrão típico: o tendão dói nos primeiros minutos do treino, melhora quando aquece e volta mais forte depois, com rigidez na manhã seguinte. Aumentos rápidos de volume, treinos de subida e panturrilha encurtada são os gatilhos mais comuns. Saiba mais sobre o tendão de Aquiles inflamado e a tendinopatia do Aquiles.

Tendinite dos fibulares

Os tendões fibulares passam atrás do osso do lado de fora do tornozelo. A tendinite causa dor nessa região, que piora durante a corrida, em curvas e em pista inclinada. É mais comum em quem tem o pé cavo, com o calcanhar virado para fora, e em quem já teve entorses. Leia sobre a tendinite fibular. Para outras causas de dor nesse lado, veja as doenças que causam dor na lateral do tornozelo.

Tendinite do tibial posterior

O tibial posterior passa atrás do osso do lado de dentro do tornozelo e sustenta o arco do pé. Quando ele inflama, a dor fica na parte interna, às vezes com inchaço, e piora ao correr e ficar na ponta dos pés. Pessoas com pé plano têm mais risco. Sem tratamento, o tendão pode perder força e o arco do pé cai aos poucos. Veja como tratar a tendinite no tornozelo.

Fratura por estresse

É uma pequena trinca no osso causada pelo impacto repetido, sem queda ou torção. Os pontos mais comuns perto do tornozelo são a parte baixa da fíbula, o maléolo medial (o osso de dentro do tornozelo) e o navicular, no meio do pé. A dor começa leve, só no fim do treino, e vai aparecendo cada vez mais cedo, até doer ao caminhar e à noite. Apertar o osso no ponto da dor costuma doer muito. Aumento brusco de volume, pouca ingestão de calorias, falta de vitamina D e alterações menstruais aumentam o risco. Veja também os sintomas da fratura da fíbula distal.

Quem continua correndo com uma fratura por estresse pode transformar a trinca em uma fratura completa. Se há suspeita, o treino deve parar até a avaliação.

Impacto anterior do tornozelo

Com anos de corrida, pequenos bicos de osso (osteófitos) podem crescer na frente da tíbia e do tálus. Eles batem um no outro quando o tornozelo dobra para cima, como na subida e no apoio do pé no chão. A dor fica na frente do tornozelo, piora em ladeiras e pode limitar o movimento. Quando não melhora com fisioterapia, o tratamento é feito por artroscopia de tornozelo.

Lesão da cartilagem e artrose

Uma torção forte pode lesionar a cartilagem do tálus, o osso que se encaixa embaixo da tíbia. A dor é profunda, dentro da articulação, e vem com inchaço depois de correr e, às vezes, estalos ou travamento. Entorses repetidas e fraturas antigas também levam ao desgaste da cartilagem. Leia sobre a artrose no tornozelo.

Dor que vem da canela

Nem toda dor perto do tornozelo começa nele. A canelite causa dor na borda de dentro da tíbia, alguns centímetros acima do tornozelo, e é muito comum em quem está começando a correr ou aumentou o treino. Entenda o que é canelite e como tratar.

Atleta sentada no colchonete segurando o pé e o tornozelo com dor após o treino

Como identificar a causa pelo local da dor

Onde dói e como se comporta Causa mais provável
Na frente e embaixo do osso de fora, depois de pisar em falso Entorse com lesão do ligamento talofibular anterior
Tornozelo que falseia e torce com facilidade, meses depois de uma entorse Instabilidade crônica
Atrás do tornozelo, com rigidez de manhã e dor no início do treino Tendinite do Aquiles
Atrás do osso de fora, pior em curvas e pista inclinada Tendinite dos fibulares
Atrás do osso de dentro, com inchaço, em quem tem pé plano Tendinite do tibial posterior
Em um ponto do osso que dói ao apertar e piora a cada treino Fratura por estresse
Na frente do tornozelo, ao subir ladeiras e agachar Impacto anterior
Dentro da articulação, com inchaço e travamento depois de correr Lesão da cartilagem ou artrose
Na borda de dentro da canela, acima do tornozelo Canelite

Quando parar de correr e procurar um médico

Interrompa o treino e procure atendimento no mesmo dia se houver:

  • Dificuldade para dar quatro passos apoiando o pé depois de uma torção.
  • Dor forte ao apertar o osso, principalmente nas pontas dos maléolos.
  • Tornozelo deformado ou estalo forte seguido de dor intensa.
  • Tornozelo vermelho, quente e inchado sem ter torcido.
  • Dor que acorda à noite ou aparece em repouso.

Marque uma consulta, sem urgência, se a dor dura mais de duas semanas, se volta em todo treino, se o tornozelo incha depois de correr ou se você precisa mudar o jeito de pisar para conseguir terminar o percurso. O inchaço que aparece depois da corrida tem causas próprias, explicadas em tornozelo inchado após exercício. Quando há calor e inchaço na articulação, veja também as causas do tornozelo inflamado.

Exames usados no diagnóstico

O ortopedista começa perguntando como a dor surgiu e como está o treino: volume semanal, mudanças recentes, tipo de piso e de tênis. No exame físico, ele aperta cada estrutura, testa os ligamentos e os tendões e observa a pisada. Os exames confirmam a suspeita:

  • Raio-X: mostra fraturas, bicos de osso e artrose. Nas primeiras semanas, a fratura por estresse quase nunca aparece nele.
  • Ressonância magnética: é o exame mais completo. Mostra fratura por estresse no início, tendões, ligamentos e cartilagem. Saiba mais sobre a ressonância magnética de pé e tornozelo.
  • Ultrassom: avalia o Aquiles, os fibulares e o tibial posterior com o pé em movimento.
  • Tomografia: usada em fraturas que demoram a consolidar, como as do navicular, e no planejamento de cirurgia.

Tratamento da dor no tornozelo ao correr

O tratamento depende da causa, mas segue uma lógica comum: reduzir a carga até a dor controlar, tratar a lesão e recuperar a força antes de voltar.

  • Ajuste do treino: reduzir volume e intensidade, trocar parte dos treinos por bicicleta ou natação e evitar subidas. Em tendinites, uma dor leve durante a corrida (até 3 numa escala de 0 a 10), que passa até a manhã seguinte, costuma ser aceitável.
  • Gelo e elevação: nas lesões agudas, 15 a 20 minutos de gelo envolto em pano, algumas vezes ao dia, com o pé elevado.
  • Medicamentos: analgésicos ou anti-inflamatórios por poucos dias, com orientação médica.
  • Imobilização: bota ou tala nas entorses mais graves e nas fraturas por estresse. Veja quando e como imobilizar o tornozelo.
  • Fisioterapia: é a parte que mais evita a volta da dor. Inclui fortalecimento de panturrilha e tornozelo, treino de equilíbrio e exercícios específicos para cada tendão. Entenda o fortalecimento do tornozelo na fisioterapia e os exercícios para o tendão de Aquiles.
  • Palmilha: ajuda no pé plano e no pé cavo, aliviando os tendões. Veja o guia para escolher a palmilha ortopédica.

A cirurgia é exceção. Ela é indicada na instabilidade crônica que não melhora com fisioterapia, nas rupturas de tendão, no impacto anterior persistente, nas lesões de cartilagem e em algumas fraturas por estresse de risco, como a do navicular.

Como prevenir a dor no tornozelo na corrida

  • Aumente o treino aos poucos: evite subir volume, ritmo e subidas na mesma semana. Saltos bruscos de quilometragem estão por trás da maioria das tendinites e fraturas por estresse.
  • Fortaleça panturrilha e tornozelo: elevação de calcanhar, exercícios com faixa elástica para virar o pé para dentro e para fora e treino de equilíbrio em um pé só, duas a três vezes por semana.
  • Escolha bem o tênis: o calçado deve ser confortável desde o primeiro uso e trocado quando a sola e o amortecimento estiverem gastos. Entenda a influência dos calçados esportivos na prevenção de lesões.
  • Aqueça antes de correr: cinco a dez minutos de caminhada rápida ou trote leve, com movimentos de tornozelo.
  • Cuidado com o terreno: em trilhas e calçadas irregulares, reduza o ritmo e olhe para o chão. Quem já teve entorse pode usar tornozeleira nesses percursos.
  • Trate a primeira entorse até o fim: fazer a fisioterapia completa reduz a chance de instabilidade crônica.
  • Coma o suficiente: déficit de calorias e de vitamina D enfraquece o osso e favorece a fratura por estresse.

Quando é seguro voltar a correr

A volta deve ser gradual e só depois que o tornozelo passar por alguns testes simples:

  • Caminhar rápido por 30 minutos sem dor.
  • Ficar 30 segundos equilibrado num pé só, do lado lesionado, sem perder o apoio.
  • Fazer de 10 a 20 saltos seguidos num pé só sem dor.
  • Subir na ponta do pé lesionado tantas vezes quanto no outro lado.

Comece alternando caminhada e trote, em piso plano, em dias alternados, e aumente o tempo de corrida aos poucos ao longo de algumas semanas. Se a dor voltar e piorar no dia seguinte, recue uma etapa. Depois de fratura por estresse ou cirurgia, o retorno segue o plano definido com o médico e o fisioterapeuta.

Perguntas frequentes sobre dor no tornozelo ao correr

1. É normal sentir dor no tornozelo depois de correr?

Um leve cansaço muscular nas primeiras semanas de treino é comum. Dor localizada no tornozelo, que se repete a cada corrida, aparece com inchaço ou dura mais de dois dias, não é normal e indica sobrecarga ou lesão.

2. Posso continuar correndo com dor no tornozelo?

Depende da causa. Em algumas tendinites, uma dor leve que passa até o dia seguinte é tolerada. Dor em ponto fixo do osso, dor que aumenta durante o treino ou que muda o jeito de pisar exige parar e procurar avaliação.

3. Como saber se a dor no tornozelo é fratura por estresse?

A dor começa leve, só no fim do treino, e passa a surgir cada vez mais cedo, até ao caminhar e à noite. Apertar o osso no ponto da dor causa dor forte. A ressonância confirma o diagnóstico, pois o raio-X costuma ser normal no início.

4. O tênis pode causar dor no tornozelo?

Pode contribuir. Tênis gasto, muito diferente do anterior ou desconfortável muda a forma de pisar e sobrecarrega tendões e ligamentos. Mesmo assim, erros de treino, como aumentar a quilometragem rápido demais, pesam mais que o calçado.

5. Quanto tempo leva para voltar a correr depois de uma entorse?

Nas entorses leves, cerca de duas a três semanas. Nas moderadas, de quatro a seis semanas, e nas graves, de dois a três meses. A volta depende de recuperar a força e o equilíbrio, não só de a dor ter passado.

6. Quais exercícios ajudam a prevenir dor no tornozelo na corrida?

Elevação de calcanhar, exercícios com faixa elástica para virar o pé para dentro e para fora e treino de equilíbrio em um pé só. Feitos duas a três vezes por semana, fortalecem panturrilha e tornozelo e reduzem o risco de entorse e tendinite.

7. Qual médico procurar para dor no tornozelo ao correr?

O ortopedista especialista em pé e tornozelo, de preferência com experiência em medicina esportiva. Ele identifica a lesão, ajusta o treino junto com o fisioterapeuta e define quando é seguro voltar a correr.

Conclusão

A dor no tornozelo ao correr quase sempre tem a ver com sobrecarga ou com uma lesão anterior que não foi tratada até o fim. Entorse, instabilidade, tendinites do Aquiles, dos fibulares e do tibial posterior e fratura por estresse são as causas mais comuns. O local da dor e o momento em que ela aparece no treino dão as primeiras pistas.

A maioria dos corredores melhora com ajuste da carga, fisioterapia e fortalecimento, e a cirurgia fica para poucos casos. Dor em ponto fixo do osso, dor que piora a cada treino ou tornozelo que falseia são sinais para parar e investigar.

Se a dor está atrapalhando seus treinos ou não passa com descanso, agende sua avaliação com o Dr. Daniel Baumfeld e saia com um plano seguro para voltar a correr.