Estalos no tornozelo - Dr. Daniel Baumfeld

Estalos no Tornozelo ao Andar: Causas e Quando Preocupar

Estalos no tornozelo ao andar, sem dor, costumam ser normais: vêm de bolhas de gás na articulação ou de tendões deslizando sobre o osso. Passam a ser sinal de problema quando há dor, inchaço, falseio ou travamento, que podem indicar lesão de cartilagem, tendões fibulares, ligamentos ou artrose.

Quase todo mundo já ouviu o tornozelo estalar ao levantar da cadeira, girar o pé ou começar uma caminhada. Na maior parte das vezes o barulho não significa nada, e o tornozelo segue funcionando sem queixa.

O que muda o quadro é o que vem junto com o estalo. Dor no mesmo ponto, inchaço, sensação de que o pé vai virar ou de que algo prende dentro da articulação são sinais de que uma estrutura está lesionada e precisa ser avaliada.

Por que o tornozelo estala

Pessoa segurando o tornozelo depois de sentir estalos ao andar
O tornozelo é formado pela tíbia, pela fíbula e pelo tálus, unidos por ligamentos e cercados por tendões. A articulação talocrural é a principal delas e trabalha a cada passo. Três mecanismos explicam a maioria dos estalos.

Bolhas de gás na articulação

O líquido que lubrifica o tornozelo tem gases dissolvidos. Quando a articulação é girada ou alongada, a pressão interna cai e esses gases formam uma bolha que se desfaz de uma vez. É o mesmo estalo de quem “estala os dedos”. Depois dele, o tornozelo leva de 20 a 30 minutos para estalar de novo do mesmo jeito. Esse tipo de estalo não causa dor e não desgasta a articulação.

Tendões e ligamentos deslizando sobre o osso

Os tendões passam por canais e saliências ósseas. Quando a pessoa movimenta o pé, um tendão pode “pular” sobre uma saliência e produzir um estalo seco, que se repete sempre no mesmo movimento. Sem dor, também é considerado normal e fica mais evidente em quem tem articulações mais soltas.

Superfícies da articulação com desgaste ou lesão

Quando a cartilagem está lesionada ou o osso tem pequenas saliências, as superfícies deixam de deslizar de forma lisa. Aqui o som costuma ser diferente: um rangido ou areia por dentro, chamado crepitação, ou um clique acompanhado de dor e travamento.

Como é o estalo O que costuma ser
Estalo único ao girar o pé, sem dor, que só volta depois de um tempo Bolha de gás na articulação (normal)
Estalo seco no mesmo movimento, sem dor nem inchaço Tendão deslizando sobre o osso (normal)
Estalo atrás do osso de fora do tornozelo, com dor e sensação de algo saindo do lugar Luxação ou subluxação dos tendões fibulares
Estalos com falseio e torções de repetição Instabilidade crônica do tornozelo
Clique com dor profunda, inchaço depois do esforço e travamento Lesão da cartilagem do tálus ou fragmento solto
Rangido contínuo, rigidez e dor ao caminhar Artrose do tornozelo
Rangido atrás do tornozelo, sobre o tendão de Aquiles, com dor ao andar Inflamação do tendão de Aquiles
Estalo alto durante uma torção, salto ou arrancada, com dor forte na hora Lesão aguda de ligamento, tendão ou osso

Causas de estalos no tornozelo com dor

Quando o estalo dói, a causa quase sempre está em uma destas condições.

Tornozelo em movimento com estalos causados por tendões, ligamentos ou cartilagem

Luxação dos tendões fibulares

Os dois tendões fibulares, também chamados peroneais, passam atrás do maléolo lateral, o osso saliente do lado de fora do tornozelo. Eles ficam presos ali por uma faixa de tecido, o retináculo. Quando essa faixa se rompe, em geral numa torção durante esportes como futebol, basquete ou esqui, os tendões passam a escapar do canal e voltar.

A pessoa sente um estalo atrás do maléolo ao girar o pé para fora ou para cima, às vezes vê o tendão saltar sob a pele e tem dor e inchaço na lateral do tornozelo. Com o tempo, o atrito pode rasgar o tendão. O quadro faz parte das causas de dor na lateral do tornozelo e muitas vezes é confundido com uma tendinite fibular.

Instabilidade crônica do tornozelo

Depois de uma entorse mal recuperada, os ligamentos da lateral podem cicatrizar alongados. O tálus passa a se movimentar mais do que deveria dentro da articulação, o que produz estalos, sensação de tornozelo “solto” e novas torções em terrenos irregulares. Entenda o quadro em instabilidade crônica do tornozelo.

Lesão da cartilagem do tálus

Uma torção pode lascar ou amolecer a cartilagem que cobre o tálus. A lesão provoca dor profunda dentro do tornozelo, inchaço depois de caminhar ou correr e cliques. Quando um fragmento se solta, o tornozelo pode travar por alguns segundos. É a situação que a versão antiga deste texto chamava de condromalácia. Saiba mais sobre a dor no tálus.

Síndrome do impacto

Saliências de osso ou tecido inflamado ficam presos entre a tíbia e o tálus em certos movimentos. No impacto anterior, comum em jogadores de futebol, a dor e o estalo aparecem na frente do tornozelo ao agachar ou subir rampa. No impacto posterior, comum em bailarinas, aparecem atrás do tornozelo ao ficar na ponta dos pés.

Artrose

Com a cartilagem gasta, as superfícies ósseas raspam uma na outra. O som é de rangido e vem com rigidez ao acordar, dor ao caminhar e perda de movimento. No tornozelo, a artrose quase sempre aparece anos depois de fraturas ou torções repetidas. Veja as causas e os tratamentos da artrose no tornozelo.

Tendão de Aquiles inflamado

Quando a bainha que envolve o tendão de Aquiles inflama, o tendão pode ranger ao deslizar, como um papel sendo amassado, sentido com a mão atrás do tornozelo. A dor piora no início da caminhada e depois de treinos. Veja mais sobre a tendinopatia do Aquiles. A bursite no tornozelo, citada com frequência, causa mais dor e inchaço do que estalos.

Estalo forte durante uma torção ou corrida

Um estalo alto no momento de uma torção, salto ou arrancada, seguido de dor forte, é outra situação. Ele indica lesão aguda e pede avaliação no mesmo dia:

  • Durante uma torção: pode ser ruptura de ligamento, como o ligamento talofibular anterior, ou fratura, principalmente se o tornozelo inchar rápido e ficar roxo.
  • Atrás do tornozelo, com sensação de pancada na panturrilha: é o sinal típico do rompimento do tendão de Aquiles. A pessoa não consegue ficar na ponta do pé.
  • Atrás do osso de fora, com o tendão saltando: é o momento em que o retináculo dos tendões fibulares se rompe.

Quando os estalos no tornozelo são um risco à saúde

O estalo sozinho não causa dano. O risco está na lesão que ele pode estar sinalizando. Procure um ortopedista se o estalo vier com:

  • Dor no mesmo ponto toda vez que o tornozelo estala.
  • Inchaço que aparece depois de caminhar ou treinar.
  • Falseio ou torções que se repetem.
  • Travamento, como se algo prendesse dentro da articulação.
  • Tendão que salta visivelmente atrás do osso de fora do tornozelo.
  • Perda de movimento ou rigidez que não melhora.
  • Estalo alto seguido de dor forte, roxo ou dificuldade para apoiar o pé.

Sem tratamento, essas lesões podem evoluir. A instabilidade leva a novas torções, a luxação dos fibulares pode romper o tendão e a lesão de cartilagem pode progredir para artrose. Se o tornozelo também está quente e inchado, veja os sinais de tornozelo inflamado.

Como é feito o diagnóstico

O ponto de partida é a consulta. O médico pergunta quando os estalos começaram, se houve torção e o que piora a dor. Depois examina o tornozelo e tenta reproduzir o estalo com manobras específicas, como girar o pé para fora contra resistência para testar os tendões fibulares ou puxar o pé para frente para avaliar os ligamentos.

Os exames confirmam a causa:

  • Raio-X: mostra artrose, saliências ósseas do impacto, fragmentos soltos e fraturas antigas.
  • Ultrassom: é o melhor exame para flagrar o tendão fibular saindo do lugar, porque pode ser feito com o pé em movimento. Veja as indicações do ultrassom do tornozelo.
  • Ressonância magnética: avalia cartilagem, ligamentos e tendões com detalhe e é o exame de escolha quando há suspeita de lesão do tálus. Saiba mais sobre a ressonância do pé e tornozelo.

Tratamento dos estalos no tornozelo

Estalos sem dor não precisam de tratamento. Quando há uma lesão por trás, o tratamento é dirigido a ela, e a maioria dos casos melhora sem cirurgia.

Tratamento sem cirurgia

  • Fisioterapia: fortalece os músculos que estabilizam o tornozelo, em especial os fibulares, e treina o equilíbrio para reduzir as torções. É a base do tratamento da instabilidade. Veja como funciona o fortalecimento do tornozelo.
  • Gelo e medicamentos: gelo por 15 a 20 minutos e anti-inflamatórios por poucos dias aliviam a dor e o inchaço nas crises. Não resolvem o estalo em si.
  • Tornozeleira e palmilhas: dão mais segurança em esportes e corrigem o apoio do pé quando ele sobrecarrega a lateral.
  • Infiltração: pode aliviar a dor da artrose e do impacto em casos selecionados. Saiba mais sobre a infiltração no tornozelo.

Quando a cirurgia é indicada

A cirurgia trata a lesão, não o barulho. Ela é indicada quando a dor ou a instabilidade continuam depois de alguns meses de tratamento bem feito, ou quando a lesão não cicatriza sozinha:

  • Luxação dos tendões fibulares: o retináculo é reparado e, se o canal for raso, ele é aprofundado para os tendões ficarem no lugar. Raramente melhora só com imobilização quando os episódios se repetem.
  • Instabilidade crônica: os ligamentos são reparados ou reconstruídos. Veja quando a reconstrução do ligamento é necessária.
  • Lesão de cartilagem, fragmentos soltos e impacto: tratados por artroscopia do tornozelo, com uma câmera e pequenos cortes.
  • Desvios do alinhamento do pé: em alguns casos de instabilidade, uma osteotomia corrige o eixo do calcanhar para tirar a sobrecarga da lateral.

O que fazer em casa

Para estalos sem dor ou depois da liberação do médico, alguns cuidados ajudam a manter o tornozelo firme:

  1. Equilíbrio em um pé só: fique 30 segundos apoiado em uma perna, primeiro no chão firme e depois sobre uma almofada. Melhora o controle do tornozelo.
  2. Fortalecimento com elástico: com uma faixa elástica presa no pé, empurre o pé para fora, para dentro, para cima e para baixo, de 2 a 3 séries de 15 repetições.
  3. Elevação na ponta dos pés: suba e desça devagar, apoiado em uma parede, para fortalecer a panturrilha.
  4. Alongamento da panturrilha: com as mãos na parede e a perna de trás esticada, mantenha 30 segundos. A panturrilha encurtada aumenta o impacto na frente do tornozelo.
  5. Calçado adequado: tênis com bom apoio no calcanhar para esportes e caminhadas. Veja a influência do calçado esportivo na prevenção de lesões.

Se um exercício provocar dor, pare e procure avaliação. Outros exercícios estão em fisioterapia para tornozelo.

Perguntas frequentes sobre estalos no tornozelo

1. Tornozelo estalando sem dor é normal?

Sim. Estalos sem dor, inchaço ou falseio costumam vir de bolhas de gás no líquido da articulação ou de tendões deslizando sobre o osso. Não desgastam o tornozelo e não precisam de tratamento.

2. Estalar o tornozelo de propósito faz mal?

Não há evidência de que estalar o tornozelo cause artrose ou outra lesão. Se a pessoa sente necessidade de estalar o tempo todo para aliviar uma sensação de travado ou desconforto, vale investigar a causa.

3. Por que o tornozelo estala na parte de fora?

Na parte de fora, atrás do osso saliente, passam os tendões fibulares. Estalo sem dor ali costuma ser normal. Com dor, inchaço ou o tendão saltando sob a pele, pode ser luxação dos tendões fibulares, que geralmente começa depois de uma torção.

4. Estalos no tornozelo podem ser artrose?

Podem. Na artrose, o som é mais um rangido do que um estalo, e vem com rigidez ao acordar, dor ao caminhar e perda de movimento. É mais comum em quem já teve fratura ou várias torções no tornozelo.

5. O tornozelo estalou durante uma torção. É grave?

Pode ser. Um estalo alto no momento da torção, seguido de dor forte, inchaço rápido e roxo, sugere ruptura de ligamento ou fratura. Se não conseguir apoiar o pé, procure atendimento no mesmo dia.

6. Que exame mostra a causa dos estalos no tornozelo?

Depende da suspeita. O raio-X mostra artrose e saliências ósseas. O ultrassom com o pé em movimento flagra o tendão fibular saindo do lugar. A ressonância magnética avalia cartilagem, ligamentos e tendões.

7. Fisioterapia resolve os estalos no tornozelo?

Resolve a maioria dos casos ligados a instabilidade e fraqueza muscular, porque fortalece os músculos e melhora o equilíbrio. Na luxação dos tendões fibulares com episódios repetidos e em lesões de cartilagem que não melhoram, a cirurgia costuma ser necessária.

Conclusão

Estalos no tornozelo ao andar, quando não doem, são um barulho normal da articulação e dos tendões. O sinal de alerta é o que vem junto: dor no mesmo ponto, inchaço, falseio, travamento ou um tendão que salta atrás do osso de fora. Nesses casos, as causas mais comuns são a luxação dos tendões fibulares, a instabilidade depois de entorses, a lesão da cartilagem do tálus, o impacto e a artrose. Um estalo alto durante uma torção ou corrida pede avaliação no mesmo dia. Com diagnóstico pelo exame físico e por ultrassom ou ressonância, a maior parte dos casos melhora com fisioterapia, e a cirurgia fica para quando a lesão não cicatriza.

Se o seu tornozelo estala e dói no mesmo lugar, ou parece fraco depois de uma torção, faça um exame do seu tornozelo com o Dr. Daniel Baumfeld e saiba qual estrutura está por trás desses estalos.