Estalos no tornozelo ao andar, sem dor, costumam ser normais: vêm de bolhas de gás na articulação ou de tendões deslizando sobre o osso. Passam a ser sinal de problema quando há dor, inchaço, falseio ou travamento, que podem indicar lesão de cartilagem, tendões fibulares, ligamentos ou artrose.
Quase todo mundo já ouviu o tornozelo estalar ao levantar da cadeira, girar o pé ou começar uma caminhada. Na maior parte das vezes o barulho não significa nada, e o tornozelo segue funcionando sem queixa.
O que muda o quadro é o que vem junto com o estalo. Dor no mesmo ponto, inchaço, sensação de que o pé vai virar ou de que algo prende dentro da articulação são sinais de que uma estrutura está lesionada e precisa ser avaliada.
Por que o tornozelo estala
O tornozelo é formado pela tíbia, pela fíbula e pelo tálus, unidos por ligamentos e cercados por tendões. A articulação talocrural é a principal delas e trabalha a cada passo. Três mecanismos explicam a maioria dos estalos.
Bolhas de gás na articulação
O líquido que lubrifica o tornozelo tem gases dissolvidos. Quando a articulação é girada ou alongada, a pressão interna cai e esses gases formam uma bolha que se desfaz de uma vez. É o mesmo estalo de quem “estala os dedos”. Depois dele, o tornozelo leva de 20 a 30 minutos para estalar de novo do mesmo jeito. Esse tipo de estalo não causa dor e não desgasta a articulação.
Tendões e ligamentos deslizando sobre o osso
Os tendões passam por canais e saliências ósseas. Quando a pessoa movimenta o pé, um tendão pode “pular” sobre uma saliência e produzir um estalo seco, que se repete sempre no mesmo movimento. Sem dor, também é considerado normal e fica mais evidente em quem tem articulações mais soltas.
Superfícies da articulação com desgaste ou lesão
Quando a cartilagem está lesionada ou o osso tem pequenas saliências, as superfícies deixam de deslizar de forma lisa. Aqui o som costuma ser diferente: um rangido ou areia por dentro, chamado crepitação, ou um clique acompanhado de dor e travamento.
| Como é o estalo | O que costuma ser |
|---|---|
| Estalo único ao girar o pé, sem dor, que só volta depois de um tempo | Bolha de gás na articulação (normal) |
| Estalo seco no mesmo movimento, sem dor nem inchaço | Tendão deslizando sobre o osso (normal) |
| Estalo atrás do osso de fora do tornozelo, com dor e sensação de algo saindo do lugar | Luxação ou subluxação dos tendões fibulares |
| Estalos com falseio e torções de repetição | Instabilidade crônica do tornozelo |
| Clique com dor profunda, inchaço depois do esforço e travamento | Lesão da cartilagem do tálus ou fragmento solto |
| Rangido contínuo, rigidez e dor ao caminhar | Artrose do tornozelo |
| Rangido atrás do tornozelo, sobre o tendão de Aquiles, com dor ao andar | Inflamação do tendão de Aquiles |
| Estalo alto durante uma torção, salto ou arrancada, com dor forte na hora | Lesão aguda de ligamento, tendão ou osso |
Causas de estalos no tornozelo com dor
Quando o estalo dói, a causa quase sempre está em uma destas condições.
Luxação dos tendões fibulares
Os dois tendões fibulares, também chamados peroneais, passam atrás do maléolo lateral, o osso saliente do lado de fora do tornozelo. Eles ficam presos ali por uma faixa de tecido, o retináculo. Quando essa faixa se rompe, em geral numa torção durante esportes como futebol, basquete ou esqui, os tendões passam a escapar do canal e voltar.
A pessoa sente um estalo atrás do maléolo ao girar o pé para fora ou para cima, às vezes vê o tendão saltar sob a pele e tem dor e inchaço na lateral do tornozelo. Com o tempo, o atrito pode rasgar o tendão. O quadro faz parte das causas de dor na lateral do tornozelo e muitas vezes é confundido com uma tendinite fibular.
Instabilidade crônica do tornozelo
Depois de uma entorse mal recuperada, os ligamentos da lateral podem cicatrizar alongados. O tálus passa a se movimentar mais do que deveria dentro da articulação, o que produz estalos, sensação de tornozelo “solto” e novas torções em terrenos irregulares. Entenda o quadro em instabilidade crônica do tornozelo.
Lesão da cartilagem do tálus
Uma torção pode lascar ou amolecer a cartilagem que cobre o tálus. A lesão provoca dor profunda dentro do tornozelo, inchaço depois de caminhar ou correr e cliques. Quando um fragmento se solta, o tornozelo pode travar por alguns segundos. É a situação que a versão antiga deste texto chamava de condromalácia. Saiba mais sobre a dor no tálus.
Síndrome do impacto
Saliências de osso ou tecido inflamado ficam presos entre a tíbia e o tálus em certos movimentos. No impacto anterior, comum em jogadores de futebol, a dor e o estalo aparecem na frente do tornozelo ao agachar ou subir rampa. No impacto posterior, comum em bailarinas, aparecem atrás do tornozelo ao ficar na ponta dos pés.
Artrose
Com a cartilagem gasta, as superfícies ósseas raspam uma na outra. O som é de rangido e vem com rigidez ao acordar, dor ao caminhar e perda de movimento. No tornozelo, a artrose quase sempre aparece anos depois de fraturas ou torções repetidas. Veja as causas e os tratamentos da artrose no tornozelo.
Tendão de Aquiles inflamado
Quando a bainha que envolve o tendão de Aquiles inflama, o tendão pode ranger ao deslizar, como um papel sendo amassado, sentido com a mão atrás do tornozelo. A dor piora no início da caminhada e depois de treinos. Veja mais sobre a tendinopatia do Aquiles. A bursite no tornozelo, citada com frequência, causa mais dor e inchaço do que estalos.
Estalo forte durante uma torção ou corrida
Um estalo alto no momento de uma torção, salto ou arrancada, seguido de dor forte, é outra situação. Ele indica lesão aguda e pede avaliação no mesmo dia:
- Durante uma torção: pode ser ruptura de ligamento, como o ligamento talofibular anterior, ou fratura, principalmente se o tornozelo inchar rápido e ficar roxo.
- Atrás do tornozelo, com sensação de pancada na panturrilha: é o sinal típico do rompimento do tendão de Aquiles. A pessoa não consegue ficar na ponta do pé.
- Atrás do osso de fora, com o tendão saltando: é o momento em que o retináculo dos tendões fibulares se rompe.
Quando os estalos no tornozelo são um risco à saúde
O estalo sozinho não causa dano. O risco está na lesão que ele pode estar sinalizando. Procure um ortopedista se o estalo vier com:
- Dor no mesmo ponto toda vez que o tornozelo estala.
- Inchaço que aparece depois de caminhar ou treinar.
- Falseio ou torções que se repetem.
- Travamento, como se algo prendesse dentro da articulação.
- Tendão que salta visivelmente atrás do osso de fora do tornozelo.
- Perda de movimento ou rigidez que não melhora.
- Estalo alto seguido de dor forte, roxo ou dificuldade para apoiar o pé.
Sem tratamento, essas lesões podem evoluir. A instabilidade leva a novas torções, a luxação dos fibulares pode romper o tendão e a lesão de cartilagem pode progredir para artrose. Se o tornozelo também está quente e inchado, veja os sinais de tornozelo inflamado.
Como é feito o diagnóstico
O ponto de partida é a consulta. O médico pergunta quando os estalos começaram, se houve torção e o que piora a dor. Depois examina o tornozelo e tenta reproduzir o estalo com manobras específicas, como girar o pé para fora contra resistência para testar os tendões fibulares ou puxar o pé para frente para avaliar os ligamentos.
Os exames confirmam a causa:
- Raio-X: mostra artrose, saliências ósseas do impacto, fragmentos soltos e fraturas antigas.
- Ultrassom: é o melhor exame para flagrar o tendão fibular saindo do lugar, porque pode ser feito com o pé em movimento. Veja as indicações do ultrassom do tornozelo.
- Ressonância magnética: avalia cartilagem, ligamentos e tendões com detalhe e é o exame de escolha quando há suspeita de lesão do tálus. Saiba mais sobre a ressonância do pé e tornozelo.
Tratamento dos estalos no tornozelo
Estalos sem dor não precisam de tratamento. Quando há uma lesão por trás, o tratamento é dirigido a ela, e a maioria dos casos melhora sem cirurgia.
Tratamento sem cirurgia
- Fisioterapia: fortalece os músculos que estabilizam o tornozelo, em especial os fibulares, e treina o equilíbrio para reduzir as torções. É a base do tratamento da instabilidade. Veja como funciona o fortalecimento do tornozelo.
- Gelo e medicamentos: gelo por 15 a 20 minutos e anti-inflamatórios por poucos dias aliviam a dor e o inchaço nas crises. Não resolvem o estalo em si.
- Tornozeleira e palmilhas: dão mais segurança em esportes e corrigem o apoio do pé quando ele sobrecarrega a lateral.
- Infiltração: pode aliviar a dor da artrose e do impacto em casos selecionados. Saiba mais sobre a infiltração no tornozelo.
Quando a cirurgia é indicada
A cirurgia trata a lesão, não o barulho. Ela é indicada quando a dor ou a instabilidade continuam depois de alguns meses de tratamento bem feito, ou quando a lesão não cicatriza sozinha:
- Luxação dos tendões fibulares: o retináculo é reparado e, se o canal for raso, ele é aprofundado para os tendões ficarem no lugar. Raramente melhora só com imobilização quando os episódios se repetem.
- Instabilidade crônica: os ligamentos são reparados ou reconstruídos. Veja quando a reconstrução do ligamento é necessária.
- Lesão de cartilagem, fragmentos soltos e impacto: tratados por artroscopia do tornozelo, com uma câmera e pequenos cortes.
- Desvios do alinhamento do pé: em alguns casos de instabilidade, uma osteotomia corrige o eixo do calcanhar para tirar a sobrecarga da lateral.
O que fazer em casa
Para estalos sem dor ou depois da liberação do médico, alguns cuidados ajudam a manter o tornozelo firme:
- Equilíbrio em um pé só: fique 30 segundos apoiado em uma perna, primeiro no chão firme e depois sobre uma almofada. Melhora o controle do tornozelo.
- Fortalecimento com elástico: com uma faixa elástica presa no pé, empurre o pé para fora, para dentro, para cima e para baixo, de 2 a 3 séries de 15 repetições.
- Elevação na ponta dos pés: suba e desça devagar, apoiado em uma parede, para fortalecer a panturrilha.
- Alongamento da panturrilha: com as mãos na parede e a perna de trás esticada, mantenha 30 segundos. A panturrilha encurtada aumenta o impacto na frente do tornozelo.
- Calçado adequado: tênis com bom apoio no calcanhar para esportes e caminhadas. Veja a influência do calçado esportivo na prevenção de lesões.
Se um exercício provocar dor, pare e procure avaliação. Outros exercícios estão em fisioterapia para tornozelo.
Perguntas frequentes sobre estalos no tornozelo
1. Tornozelo estalando sem dor é normal?
Sim. Estalos sem dor, inchaço ou falseio costumam vir de bolhas de gás no líquido da articulação ou de tendões deslizando sobre o osso. Não desgastam o tornozelo e não precisam de tratamento.
2. Estalar o tornozelo de propósito faz mal?
Não há evidência de que estalar o tornozelo cause artrose ou outra lesão. Se a pessoa sente necessidade de estalar o tempo todo para aliviar uma sensação de travado ou desconforto, vale investigar a causa.
3. Por que o tornozelo estala na parte de fora?
Na parte de fora, atrás do osso saliente, passam os tendões fibulares. Estalo sem dor ali costuma ser normal. Com dor, inchaço ou o tendão saltando sob a pele, pode ser luxação dos tendões fibulares, que geralmente começa depois de uma torção.
4. Estalos no tornozelo podem ser artrose?
Podem. Na artrose, o som é mais um rangido do que um estalo, e vem com rigidez ao acordar, dor ao caminhar e perda de movimento. É mais comum em quem já teve fratura ou várias torções no tornozelo.
5. O tornozelo estalou durante uma torção. É grave?
Pode ser. Um estalo alto no momento da torção, seguido de dor forte, inchaço rápido e roxo, sugere ruptura de ligamento ou fratura. Se não conseguir apoiar o pé, procure atendimento no mesmo dia.
6. Que exame mostra a causa dos estalos no tornozelo?
Depende da suspeita. O raio-X mostra artrose e saliências ósseas. O ultrassom com o pé em movimento flagra o tendão fibular saindo do lugar. A ressonância magnética avalia cartilagem, ligamentos e tendões.
7. Fisioterapia resolve os estalos no tornozelo?
Resolve a maioria dos casos ligados a instabilidade e fraqueza muscular, porque fortalece os músculos e melhora o equilíbrio. Na luxação dos tendões fibulares com episódios repetidos e em lesões de cartilagem que não melhoram, a cirurgia costuma ser necessária.
Conclusão
Estalos no tornozelo ao andar, quando não doem, são um barulho normal da articulação e dos tendões. O sinal de alerta é o que vem junto: dor no mesmo ponto, inchaço, falseio, travamento ou um tendão que salta atrás do osso de fora. Nesses casos, as causas mais comuns são a luxação dos tendões fibulares, a instabilidade depois de entorses, a lesão da cartilagem do tálus, o impacto e a artrose. Um estalo alto durante uma torção ou corrida pede avaliação no mesmo dia. Com diagnóstico pelo exame físico e por ultrassom ou ressonância, a maior parte dos casos melhora com fisioterapia, e a cirurgia fica para quando a lesão não cicatriza.
Se o seu tornozelo estala e dói no mesmo lugar, ou parece fraco depois de uma torção, faça um exame do seu tornozelo com o Dr. Daniel Baumfeld e saiba qual estrutura está por trás desses estalos.
