Cirurgia nos dedos dos pés - Daniel Baumfeld

Como é feita a cirurgia nos dedos dos pés?

A cirurgia nos dedos dos pés corrige joanete, dedos em garra ou martelo e hálux rígido. Costuma ser feita com bloqueio anestésico e alta no mesmo dia. O paciente caminha com sapato especial desde os primeiros dias e volta ao tênis em cerca de seis semanas.

Quem ouve “cirurgia nos dedos” costuma imaginar um único procedimento, mas cada doença pede uma técnica diferente. No joanete, o osso corrigido é o metatarso, atrás do dedão. No dedo em garra, o problema pode estar só no tendão. No neuroma de Morton, o alvo é um nervo entre dois dedos. Por isso os prazos variam tanto de uma pessoa para outra.

Abaixo estão as situações em que a cirurgia é indicada, o que é feito em cada caso, como é o dia da operação, quanto tempo leva cada fase da recuperação e quais riscos precisam ser conhecidos antes.

Dois pés vistos de cima com joanete na base do dedão e o dedão desviado por cima e por baixo do segundo dedo

Quando a cirurgia nos dedos dos pés é indicada

A maioria dos problemas nos dedos melhora com calçado de bico largo, palmilha, protetores de silicone, fisioterapia e remédios. A cirurgia entra quando esses cuidados já foram tentados e o paciente continua com:

  • dor ao caminhar ou ao ficar em pé que limita a rotina;
  • deformidade que piora com o tempo ou impede o uso de calçados comuns;
  • calos e feridas que voltam no topo ou na ponta dos dedos, mesmo com proteção;
  • dedo que cruza por cima ou por baixo do vizinho;
  • dor sob a planta do pé que não cede com palmilha.

Cirurgia só para melhorar a aparência de um dedo que não dói não costuma ser recomendada. Mesmo bem feita, ela traz riscos como rigidez e dormência, que pesam mais quando não havia queixa antes.

Como é feita a cirurgia em cada problema

Conhecer a anatomia dos dedos do pé ajuda a entender a escolha. Cada dedo menor tem três falanges e duas articulações; o dedão tem duas falanges e uma articulação. Na base de todos eles fica a articulação com o metatarso, que é onde começam muitas deformidades.

Joanete (hálux valgo)

No joanete, o primeiro metatarso se desvia para dentro e o dedão vai em direção aos outros dedos. O calombo é a cabeça desse metatarso saltada para o lado. Por isso, cortar só o calombo não resolve: a correção precisa realinhar o osso.

  • Osteotomia do primeiro metatarso: o cirurgião corta o metatarso, desloca a cabeça para o lugar e fixa com parafusos. A chevron (corte em V) serve aos joanetes leves e moderados; a scarf (corte em Z), aos moderados e graves. Entenda melhor a osteotomia no pé e sua recuperação.
  • Osteotomia de Akin: uma pequena cunha é retirada da falange do dedão para acertar o alinhamento final. Costuma ser feita junto com a osteotomia do metatarso.
  • Artrodese de Lapidus: fusão da articulação entre o primeiro metatarso e o osso cuneiforme, usada quando essa articulação está frouxa ou o desvio é grande.
  • Artrodese da base do dedão: fusão da articulação do dedão com o metatarso, reservada para joanete muito grave, com artrose ou em revisões.

A retirada isolada do calombo, chamada exostectomia, fica para casos específicos, como idosos com pouca demanda e desvio pequeno, porque sozinha ela não corrige o eixo. Veja como é a cirurgia para joanete e os cuidados no pós-operatório.

O joanete do dedo mínimo, chamado bunionete, segue a mesma lógica: a correção é feita com uma osteotomia no quinto metatarso. Saiba mais sobre o joanete no dedo mindinho.

Dedos em garra, em martelo e em taco

Os três nomes descrevem dedos menores dobrados em pontos diferentes:

  • Dedo em martelo: dobra para baixo na articulação do meio.
  • Dedo em garra: levanta na base e dobra para baixo nas duas articulações seguintes, como um gancho.
  • Dedo em taco: dobra só na última articulação, perto da unha.

A técnica depende de o dedo ainda esticar com a mão ou não.

  • Dedo flexível: o problema está nos tendões. O cirurgião alonga ou corta o tendão que puxa o dedo para baixo, às vezes por um furo de poucos milímetros, ou transfere esse tendão para o topo do dedo para que ele passe a segurar o dedo reto.
  • Dedo rígido: a articulação já travou na posição errada. Retira-se uma pequena parte da cabeça da falange (artroplastia de ressecção) ou une-se a articulação do meio de forma definitiva (artrodese). O dedo fica reto e firme, sem dobrar naquele ponto.
  • Base do dedo levantada: quando a articulação com o metatarso também está desviada, soltam-se a cápsula e o tendão do peito do pé. Se o ligamento sob essa articulação estiver rompido, que é a causa comum do dedo que cruza por cima do vizinho, ele é reparado.

Na artroplastia e na artrodese, o dedo costuma ser fixado com um fio de metal fino, o fio de Kirschner, que sai pela ponta do dedo e fica por quatro a seis semanas. Outra opção é um pequeno implante interno, que não precisa ser retirado. Conheça os tratamentos para dedos em garra e em martelo.

Metatarso longo e dor embaixo dos dedos

Quando um metatarso é mais comprido ou está mais baixo que os vizinhos, ele concentra o peso sob a planta do pé, forma calo e ajuda a entortar o dedo. Nesses casos, a correção dos dedos é combinada com o encurtamento do metatarso, pela osteotomia de Weil (aberta) ou por cortes percutâneos na base da cabeça do osso. Veja as causas da dor embaixo dos dedos do pé.

Hálux rígido (artrose do dedão)

No hálux rígido, a cartilagem da base do dedão se desgasta e formam-se bicos de osso no topo da articulação, que travam o movimento ao dar o passo. As opções seguem o grau de desgaste:

  • Queilectomia: retirada dos bicos de osso e de parte da borda da articulação. Indicada no desgaste leve a moderado, devolve movimento e tira a dor do topo do dedo.
  • Osteotomia de Moberg: pequena cunha retirada da falange do dedão, muitas vezes junto com a queilectomia, para o dedo dobrar melhor ao caminhar.
  • Artrodese: fusão da articulação do dedão no desgaste avançado. Tira a dor de forma duradoura e permite caminhar, correr e praticar esportes. A limitação fica para salto alto.
  • Implantes e próteses: usados em casos selecionados, com resultados menos previsíveis que os da artrodese.

Veja o tempo de recuperação da cirurgia de hálux rígido e se a artrose no dedão do pé tem cura. Para entender quando unir uma articulação faz sentido em outras partes do pé, leia sobre a artrodese no pé.

Neuroma de Morton

O neuroma de Morton é o espessamento de um nervo que passa entre os metatarsos, quase sempre entre o terceiro e o quarto dedo. Causa queimação, choque ou a sensação de uma pedra no sapato. São duas as cirurgias:

  • Descompressão: o cirurgião corta o ligamento que liga as cabeças dos metatarsos e aperta o nervo por cima. O nervo é preservado.
  • Neurectomia: o trecho doente do nervo é retirado. Alivia a dor na maioria dos pacientes, mas deixa uma área dormente permanente entre os dois dedos.

As duas costumam ser feitas por um corte no peito do pé, para não deixar cicatriz na planta, onde se pisa. Saiba como é a cirurgia do neuroma de Morton.

Outras cirurgias nos dedos

  • Dedo longo demais: encurtamento de uma falange para aliviar calos na ponta e o atrito com o calçado. Veja como funciona a cirurgia para diminuir o dedo do pé.
  • Fraturas com desvio: a maior parte das fraturas dos dedos se trata sem operar. A cirurgia fica para fraturas do dedão que entram na articulação ou para desvios que não se mantêm no lugar. Saiba quanto tempo leva a recuperação do dedo do pé quebrado.
  • Unha encravada que volta sempre: retirada da parte lateral da unha junto com a raiz daquele trecho, para que ela não cresça de novo para dentro da pele.

Cirurgia aberta ou percutânea

Na técnica percutânea, o osso é cortado com uma fresa fina por incisões de dois a três milímetros, com controle por raio-X, e os parafusos entram pela pele. Ela é usada no joanete, no encurtamento dos metatarsos e em parte das correções dos dedos menores. Os cortes menores costumam trazer menos dor e inchaço nos primeiros dias, cicatrizes discretas e menos problemas na ferida.

Deformidades muito grandes, artrodeses, reparo do ligamento sob a base do dedo e revisões de cirurgias anteriores costumam pedir a técnica aberta. Nas duas, o osso leva o mesmo tempo para colar. Saiba mais sobre a cirurgia de joanete minimamente invasiva e outros procedimentos minimamente invasivos no pé.

Antes da cirurgia

A decisão começa no consultório, com a história da dor, os calçados usados, as cirurgias anteriores e doenças como diabetes, artrite reumatoide e problemas de circulação. O ortopedista examina o pé em pé e caminhando, testa se cada dedo ainda estica e procura os pontos de calo.

  • Radiografias com carga: feitas com o paciente em pé, mostram o desvio real e permitem medir os ângulos que definem a técnica.
  • Ressonância magnética: avalia a cartilagem, o ligamento sob a base dos dedos e o neuroma.
  • Ultrassonografia: confirma o neuroma de Morton e mostra inflamações próximas.
  • Exames de sangue e avaliação clínica: pedidos de acordo com a idade e a saúde de cada paciente.

Fumar atrasa a consolidação do osso e aumenta o risco de infecção. Parar algumas semanas antes faz diferença no resultado. Também vale organizar a casa antes, porque nos primeiros dias o pé precisa ficar elevado a maior parte do tempo.

Como é o dia da cirurgia

A anestesia mais usada é o bloqueio dos nervos do tornozelo ou da perna, combinado com sedação. O pé fica sem dor por várias horas depois da operação, o que ajuda na primeira noite em casa. Em cirurgias maiores, a raquianestesia ou a anestesia geral podem ser escolhidas.

A operação dura de 30 minutos, em um dedo menor ou no neuroma, a duas horas, quando joanete e dedos vizinhos são corrigidos juntos. Ao final, o cirurgião confere o alinhamento com raio-X, faz um curativo que mantém os dedos na posição e calça o sapato pós-operatório. Na maioria dos casos o paciente vai para casa no mesmo dia.

Como é a recuperação da cirurgia nos dedos dos pés

Pés de uma pessoa em pé sobre piso de madeira, usando sandálias verdes, com os dois dedões enfaixados com gaze branca

Na maioria das cirurgias dos dedos, o apoio é liberado logo no início com o sapato pós-operatório, que tem solado rígido e tira a carga da frente do pé. As exceções são a artrodese de Lapidus e algumas cirurgias combinadas com o meio do pé, que pedem algumas semanas com bota e apoio limitado.

  • Primeira semana: pé elevado acima do nível do coração na maior parte do dia, gelo sobre o curativo e analgésicos. Caminhadas só dentro de casa, com o sapato especial.
  • Duas semanas: retirada dos pontos e troca do curativo. Em muitos casos, o curativo que segura os dedos na posição continua por mais algumas semanas.
  • Quatro a seis semanas: retirada dos fios de metal, quando foram usados. É feita no consultório, sem anestesia, e leva poucos segundos.
  • Seis semanas: com o raio-X mostrando o osso colado, troca do sapato especial por um tênis largo e macio. Começa a fisioterapia para movimento, força e marcha.
  • Dois a três meses: volta aos calçados do dia a dia, à academia e a caminhadas mais longas.
  • Três a seis meses: corrida, esportes de impacto e sapatos mais justos.
  • Até um ano: o inchaço no fim do dia diminui aos poucos e o resultado final aparece.

Os prazos mudam conforme a cirurgia:

Cirurgia Apoio do pé Volta ao tênis Esporte com impacto
Neuroma de Morton Primeiros dias, com sapato ou curativo 2 a 4 semanas 6 a 8 semanas
Dedo em garra ou martelo Imediato, com sapato especial 4 a 6 semanas, após retirar o fio 2 a 3 meses
Joanete por osteotomia Imediato, com sapato especial 6 semanas 3 a 6 meses
Queilectomia do hálux rígido Imediato, com sapato especial 2 a 3 semanas 6 a 8 semanas
Artrodese do dedão Imediato, apoiando no calcanhar 6 a 8 semanas 3 a 6 meses

Quem trabalha sentado costuma voltar entre uma e três semanas, com o pé apoiado em um banquinho. Quem passa o dia em pé leva de seis a dez semanas. Para dirigir, o pé precisa estar fora do sapato especial e conseguir frear com força, o que vale principalmente para o pé direito. A fisioterapia é parte do tratamento: sem ela, a base dos dedos tende a ficar rígida. Veja como funciona a fisioterapia na reabilitação do pé e tornozelo, os cuidados do pós-operatório de joanete e o procedimento e a recuperação das cirurgias de pé e tornozelo de forma geral.

Riscos e complicações

A cirurgia nos dedos tem bons resultados na maioria dos pacientes, mas alguns riscos precisam ser conhecidos antes:

  • Rigidez: a articulação operada pode perder parte do movimento, principalmente a do dedão e a base dos dedos menores.
  • Volta da deformidade: acontece em uma parte dos joanetes e dos dedos em garra, mais ainda quando o paciente volta a usar calçados apertados.
  • Dedo flutuante: depois do encurtamento do metatarso, alguns dedos ficam levemente levantados e não tocam o chão.
  • Dor transferida: mudar o comprimento de um metatarso pode passar a sobrecarga para o vizinho.
  • Dormência: pequenos nervos da pele passam perto dos cortes e podem deixar formigamento em parte do dedo. Na neurectomia, a dormência entre os dois dedos é esperada.
  • Infecção: na ferida ou ao redor do fio de metal, mais comum em fumantes, diabéticos e pessoas com má circulação.
  • Atraso na consolidação: o osso demora a colar ou não cola, principalmente nas artrodeses e em fumantes.
  • Trombose: é menos comum que nas cirurgias do tornozelo, mas o risco existe. Conheça os sintomas da trombose no tornozelo.

Sinais de alerta no pós-operatório

Procure o cirurgião ou um pronto-atendimento se aparecer:

  • febre acima de 37,8 °C;
  • dedos frios, brancos, roxos ou sem sensibilidade, mesmo com o pé elevado;
  • secreção, mau cheiro ou vermelhidão que se espalha ao redor da ferida ou do fio;
  • dor forte na panturrilha, com a batata da perna inchada e endurecida;
  • falta de ar ou dor no peito;
  • dor que piora depois da primeira semana em vez de melhorar.

Perguntas frequentes sobre cirurgia nos dedos dos pés

1. A cirurgia nos dedos dos pés dói?

Durante a operação, não, por causa do bloqueio anestésico. A dor é maior nos dois ou três primeiros dias e é controlada com analgésicos, gelo e o pé elevado. Depois da primeira semana, a maioria dos pacientes relata apenas desconforto e inchaço no fim do dia.

2. Posso andar depois da cirurgia nos dedos?

Na maioria dos casos, sim. O apoio é liberado nos primeiros dias com o sapato pós-operatório de solado rígido, que protege a frente do pé. Algumas cirurgias, como a artrodese de Lapidus no joanete, pedem algumas semanas com bota e apoio limitado.

3. Tirar o fio de metal do dedo dói?

Costuma causar só um incômodo rápido. A retirada é feita no consultório entre quatro e seis semanas depois da cirurgia, sem anestesia, e leva poucos segundos. O pequeno furo na ponta do dedo fecha em um ou dois dias.

4. Dá para operar os dois pés ao mesmo tempo?

Nas cirurgias dos dedos e no joanete operado por osteotomia, sim, porque o apoio é liberado com sapato especial nos dois pés. Operar os dois juntos encurta o tempo total de afastamento, mas dificulta os primeiros dias. Quando um dos lados exige semanas sem carga, os pés são operados em momentos diferentes.

5. A deformidade pode voltar depois da cirurgia?

Pode, em uma parte dos casos. O risco é maior quando há frouxidão dos ligamentos, artrite inflamatória ativa ou volta aos calçados apertados e de bico fino. Usar calçados com espaço para os dedos depois da recuperação ajuda a manter a correção.

6. O plano de saúde cobre a cirurgia nos dedos dos pés?

Sim. As cirurgias para joanete, dedos em garra ou martelo, hálux rígido e neuroma de Morton fazem parte da cobertura obrigatória dos planos de saúde e também são realizadas pelo SUS, desde que haja indicação médica documentada.

Conclusão

A cirurgia nos dedos dos pés não é um procedimento único. No joanete, o metatarso é cortado e realinhado. Nos dedos em garra e martelo, a correção vai do alongamento de um tendão à fusão de uma articulação. No hálux rígido, retiram-se os bicos de osso ou une-se a articulação, e no neuroma de Morton o nervo é liberado ou retirado. Em quase todos os casos a alta é no mesmo dia, o apoio começa com sapato especial e o tênis volta em cerca de seis semanas.

Se os seus dedos estão tortos, encavalados ou machucam dentro do sapato mesmo com palmilha e calçado largo, leve seus exames ao Dr. Daniel Baumfeld e descubra qual técnica corrige o seu dedo e quanto tempo de pausa você vai precisar.