Osteotomia no pé - Daniel Baumfeld

Osteotomia no pé: quando é indicada e como é a recuperação

A osteotomia no pé é a cirurgia que corta um osso, muda sua posição e o fixa com parafusos ou placas até colar. É usada no joanete, pé plano e pé cavo. O osso consolida em seis a oito semanas, e a rotina volta entre dois e seis meses.

O nome assusta, mas a ideia é simples. Quando um osso está torto, curto, longo demais ou faz a carga do corpo cair no lugar errado, a articulação ao lado sofre: dói, inflama e se desgasta antes do tempo. Cortar esse osso e colocá-lo na posição certa tira a sobrecarga sem mexer na cartilagem que ainda está boa.

Abaixo estão as situações em que a osteotomia é indicada, os tipos mais usados em cada parte do pé, os exames que orientam a decisão, como é a cirurgia e o que esperar de cada fase da recuperação.

Perna de paciente na sala de cirurgia com a coxa enfaixada e o pé apoiado no campo cirúrgico, com a pele pintada de antisséptico

O que é a osteotomia

Osteotomia quer dizer, literalmente, corte do osso. O cirurgião faz um corte planejado com serra ou fresa, move o fragmento até a posição desejada e o prende com parafusos, placas ou grampos. A partir daí o osso cicatriza como em uma fratura, só que agora alinhado.

O movimento feito depois do corte depende do problema:

  • Deslizamento: o fragmento é empurrado para o lado, como no calcanhar desviado ou na cabeça do primeiro metatarso no joanete.
  • Cunha de fechamento: uma fatia em forma de cunha é retirada e as duas partes são encostadas, o que muda o ângulo do osso.
  • Cunha de abertura: o osso é aberto de um lado e o espaço é preenchido com enxerto, o que também muda o ângulo e pode ganhar comprimento.
  • Encurtamento ou alongamento: usados quando um metatarso é longo demais e sobrecarrega a planta do pé, ou curto demais.

Diferente da artrodese, a osteotomia não elimina nenhuma articulação. O movimento continua, e o que muda é a forma como o peso passa por ela.

Para que serve

Na prática, a osteotomia tem quatro funções:

  • Corrigir deformidades: joanete, pé plano, pé cavo, calcanhar torto e ossos que colaram tortos depois de uma fratura.
  • Redistribuir a carga: quando só um lado da articulação está gasto, mudar o eixo do osso transfere o peso para a parte com cartilagem saudável e alivia a dor.
  • Ajustar o comprimento: encurtar ou alongar um metatarso para equilibrar a pisada na frente do pé.
  • Adiar a prótese ou a fusão: em pacientes mais jovens com artrose parcial do tornozelo, realinhar o osso pode preservar a articulação por muitos anos.

Quando a osteotomia no pé é necessária

A osteotomia entra quando a dor ou a deformidade vem de um osso mal posicionado, a cartilagem ainda está em bom estado e os tratamentos sem cirurgia (calçados adequados, palmilhas, fisioterapia e remédios) já não resolvem. As situações mais comuns são:

  • Joanete (hálux valgo): é a causa mais frequente de osteotomia no pé. O primeiro metatarso se desvia para dentro e o dedão vai para fora. Corrigir o metatarso é o que leva o dedão de volta ao lugar. Veja como é a cirurgia para joanete e os cuidados no pós-operatório.
  • Joanete do dedo mínimo (bunionete): mesma lógica, aplicada ao quinto metatarso. Saiba mais sobre o joanete no dedo mindinho.
  • Metatarsalgia e dedos em garra: metatarsos longos ou abaixados concentram pressão sob a planta do pé, formam calos dolorosos e ajudam a deformar os dedos. Conheça os tratamentos para dedos em garra e em martelo.
  • Hálux rígido inicial: uma osteotomia na falange do dedão melhora o movimento ao caminhar quando a artrose ainda não é avançada. Veja o tempo de recuperação da cirurgia de hálux rígido.
  • Pé plano do adulto flexível: o calcanhar cai para fora e o arco desaba. Deslocar o calcâneo para dentro reconstrói o apoio. Entenda a cirurgia de pé chato e a recuperação.
  • Pé cavo: arco alto com o calcanhar virado para dentro, que sobrecarrega a borda de fora do pé e provoca entorses repetidas. Saiba mais sobre a cirurgia de pé cavo.
  • Fraturas que consolidaram tortas: no calcâneo, no tornozelo ou nos metatarsos, a osteotomia refaz o alinhamento perdido. Veja as sequelas das fraturas do calcâneo.
  • Artrose parcial do tornozelo: quando o desgaste está concentrado em um lado da articulação, a osteotomia acima do tornozelo muda o eixo da perna e tira a carga da área gasta. Conheça os sintomas e tratamentos da artrose do tornozelo.
  • Deformidades congênitas: alguns desvios presentes desde o nascimento continuam causando dor ou dificuldade com calçados na vida adulta.

Duas palavras aparecem muito nos laudos: varo e valgo. No calcanhar, varo significa que ele está virado para dentro (típico do pé cavo) e valgo, que está virado para fora (típico do pé plano). No dedão, o hálux valgo é o dedo desviado em direção aos outros dedos.

Osteotomia ou artrodese?

A diferença está no estado da cartilagem. Se a articulação ainda tem cartilagem e o problema é de alinhamento, a osteotomia corrige o eixo e mantém o movimento. Se a cartilagem já acabou, mudar o eixo não tira a dor, e a opção passa a ser fundir a articulação com a artrodese no pé ou, no tornozelo e em algumas articulações dos dedos, substituí-la por uma prótese de tornozelo ou outro tipo de artroplastia do pé. Em deformidades grandes, o cirurgião pode combinar as duas técnicas na mesma cirurgia.

Tipos de osteotomia no pé

Cada osteotomia recebe o nome do osso cortado ou do cirurgião que a descreveu. As mais usadas são:

Na frente do pé

  • Chevron: corte em V na cabeça do primeiro metatarso, que é deslizada para fora. Usada nos joanetes leves e moderados.
  • Scarf: corte em Z ao longo do primeiro metatarso, que permite correções maiores e ajuste de comprimento.
  • Akin: pequena cunha retirada da falange do dedão para acertar o alinhamento final do dedo. Costuma ser feita junto com a chevron ou a scarf.
  • Weil: corte oblíquo na cabeça do segundo, terceiro ou quarto metatarso para encurtá-lo e aliviar a metatarsalgia.
  • Osteotomia do quinto metatarso: corrige o bunionete.
  • Moberg: cunha retirada de cima da falange do dedão, usada no hálux rígido.

No meio do pé e no calcanhar

  • Osteotomia de deslizamento medial do calcâneo: o calcanhar é deslocado para dentro. É a base da correção do pé plano do adulto, quase sempre junto com a transferência de um tendão.
  • Alongamento da coluna lateral (Evans): abre a parte da frente do calcâneo com enxerto para reposicionar o meio do pé no pé plano.
  • Osteotomia de lateralização do calcâneo (Dwyer): desloca ou angula o calcanhar para fora no pé cavo.
  • Osteotomia de elevação do primeiro metatarso: levanta o primeiro metatarso abaixado no pé cavo.
  • Osteotomia do cuneiforme medial (Cotton): abre o cuneiforme com enxerto para devolver apoio à borda de dentro do pé plano.

Acima do tornozelo

  • Osteotomia supramaleolar: corte na tíbia, às vezes também na fíbula, logo acima do tornozelo. Corrige o eixo da perna na artrose parcial do tornozelo e nas fraturas antigas que consolidaram tortas.

Exames que orientam a decisão

A indicação começa no consultório, com a história do paciente (lesões e cirurgias anteriores, doenças das articulações, rotina e calçados) e o exame do pé em pé, caminhando e deitado. O ortopedista observa se a deformidade é flexível ou rígida, onde estão os calos, o movimento de cada articulação e a estabilidade do tornozelo. Os exames complementam a avaliação:

  • Radiografias com carga: feitas com o paciente em pé, mostram o desvio real dos ossos e permitem medir os ângulos que definem o tipo e o tamanho da correção.
  • Tomografia: mostra a forma dos ossos em três dimensões. Ajuda a planejar fraturas antigas e deformidades complexas. Alguns serviços já fazem a tomografia com o paciente em pé.
  • Ressonância magnética: avalia a cartilagem, os tendões e os ligamentos. É ela que costuma decidir entre preservar a articulação com osteotomia ou partir para a fusão.
  • Cintilografia ou SPECT: em casos selecionados, mostra quais articulações estão inflamadas quando o raio-X não deixa claro de onde vem a dor.

Como é feita a cirurgia

Equipe cirúrgica com luvas preparando o pé de um paciente coberto por campos cirúrgicos azuis, aplicando antisséptico com uma gaze

A anestesia costuma ser raquidiana ou geral, combinada com um bloqueio dos nervos da perna, que deixa o pé sem dor nas primeiras horas depois da operação. Em seguida, o cirurgião:

  1. acessa o osso por uma incisão na pele ou por cortes de poucos milímetros;
  2. faz o corte no ponto e no ângulo definidos no planejamento;
  3. desloca, gira, encurta ou abre o fragmento até a posição corrigida, colocando enxerto quando há espaço a preencher;
  4. fixa o osso com parafusos, placa ou grampos e confere o resultado com raio-X durante a cirurgia;
  5. fecha a pele e protege o pé com curativo, tala ou bota.

As osteotomias da frente do pé duram em torno de uma hora, e o paciente costuma ir para casa no mesmo dia ou no dia seguinte. As do calcanhar e do tornozelo, muitas vezes combinadas com outros procedimentos, levam de duas a três horas, com um ou dois dias de internação.

Cirurgia aberta ou percutânea

Na técnica percutânea, o osso é cortado com uma fresa fina através de incisões de dois a três milímetros, com controle por raio-X, e os parafusos são colocados pela pele. Ela é muito usada no joanete, nos metatarsos menores e em parte das osteotomias do calcâneo. Os cortes menores costumam trazer menos dor e menos inchaço nos primeiros dias, cicatrizes discretas e menor risco de problema na ferida. Saiba mais sobre os procedimentos minimamente invasivos no pé.

Deformidades muito grandes, cortes que precisam de enxerto e revisões de cirurgias anteriores ainda pedem a técnica aberta. Nas duas, o osso leva o mesmo tempo para colar, então os prazos de apoio não mudam.

Como é a recuperação da osteotomia no pé

O tempo de recuperação depende de onde foi feito o corte. A frente do pé tolera carga logo no início, protegida por um sapato especial. O calcanhar e o tornozelo precisam ficar sem apoio até o osso começar a colar.

Osteotomias da frente do pé (joanete, metatarsos e dedos)

  • Primeiros dias: pé elevado acima do nível do coração na maior parte do tempo, gelo e analgésicos. O apoio já é permitido com o sapato pós-operatório de solado rígido, que tira a carga dos dedos.
  • Duas semanas: retirada dos pontos, quando não são absorvíveis. As caminhadas curtas dentro de casa aumentam aos poucos.
  • Seis semanas: com o raio-X mostrando consolidação, a troca do sapato especial por um tênis largo e macio. Começam os exercícios de movimento do dedão e a fisioterapia.
  • Dois a três meses: volta aos calçados do dia a dia, à academia e a atividades sem impacto.
  • Três a seis meses: corrida e esportes de impacto. O inchaço no fim do dia ainda pode aparecer até seis meses ou um ano depois.

Osteotomias do calcanhar e do tornozelo

  • Primeiras duas semanas: tala gessada, pé elevado e muletas ou andador, sem apoiar o pé operado.
  • De duas a seis semanas: troca da tala por gesso ou bota imobilizadora, ainda sem carga. Em parte dos casos, já se iniciam exercícios de movimento do tornozelo fora da bota.
  • De seis a dez semanas: apoio progressivo dentro da bota, conforme o raio-X.
  • De três a seis meses: saída da bota, volta ao tênis, fisioterapia de marcha, força e equilíbrio e retorno às atividades comuns.
  • De seis meses a um ano: o inchaço residual diminui e o resultado final aparece.

Quem trabalha sentado costuma voltar entre duas e quatro semanas nas cirurgias da frente do pé e entre quatro e seis nas do retropé, desde que mantenha o pé elevado. Quem passa o dia em pé leva de dois a quatro meses. Para dirigir, o pé precisa estar fora da bota ou do sapato especial e conseguir frear com força, o que vale principalmente para o pé direito. A fisioterapia é parte do tratamento e não um complemento. Veja como funciona a fisioterapia na reabilitação do pé e tornozelo e o procedimento e a recuperação das cirurgias de pé e tornozelo de forma geral.

Riscos e complicações

A osteotomia tem bons resultados na maioria dos pacientes, mas os riscos precisam ser conhecidos antes da cirurgia:

  • Atraso de consolidação ou pseudoartrose: o osso demora a colar ou não cola. É mais comum em fumantes, diabéticos e quando o pé recebe carga antes da hora.
  • Correção a mais ou a menos: o pé pode ficar com desvio residual ou ser corrigido além do necessário. No joanete, existe ainda o risco de a deformidade voltar com os anos.
  • Rigidez: a articulação próxima ao corte pode perder parte do movimento, principalmente a do dedão.
  • Dor transferida: mudar o comprimento de um metatarso pode passar a sobrecarga para o vizinho. Depois da osteotomia de Weil, alguns dedos ficam levemente levantados.
  • Lesão de nervo: pequenos nervos da pele passam perto dos cortes e podem deixar dormência ou formigamento em parte do pé.
  • Infecção e problemas na ferida: mais frequentes em fumantes, diabéticos e pessoas com má circulação.
  • Trombose: o tempo de imobilização aumenta o risco de coágulos nas veias da perna. Conheça os sintomas da trombose no tornozelo.
  • Incômodo com o material: parafusos e placas podem ser sentidos no calçado e, quando incomodam, são retirados depois que o osso colou.

Sinais de alerta no pós-operatório

Procure o cirurgião ou um pronto-atendimento se aparecer:

  • febre acima de 37,8 °C;
  • dor forte na panturrilha, com inchaço e a batata da perna endurecida;
  • falta de ar ou dor no peito;
  • secreção, vermelhidão que se espalha ou mau cheiro na ferida;
  • dedos frios, roxos ou sem sensibilidade, mesmo com o pé elevado;
  • dor que piora depois da primeira semana em vez de melhorar.

Perguntas frequentes sobre osteotomia no pé

1. Quanto tempo fico sem pisar depois da osteotomia no pé?

Depende do osso operado. Nas osteotomias do joanete e dos metatarsos, o apoio com sapato pós-operatório costuma ser liberado nos primeiros dias. Nas do calcanhar e do tornozelo, o pé fica sem carga por cerca de seis semanas, e o apoio volta aos poucos dentro da bota.

2. A osteotomia no pé dói?

Durante a cirurgia, não, por causa da anestesia e do bloqueio dos nervos. A dor é maior nos dois ou três primeiros dias e é controlada com analgésicos, gelo e o pé elevado. Depois da primeira semana, a maioria dos pacientes relata apenas desconforto.

3. Os parafusos precisam ser retirados?

Na maioria dos casos, não. Os parafusos usados na frente do pé costumam ficar embutidos no osso para sempre. A retirada é feita quando placas ou parafusos incomodam no calçado, sempre depois que o osso está consolidado.

4. O resultado da osteotomia é definitivo?

Depois que o osso cola na nova posição, a correção óssea é permanente. A deformidade pode voltar quando há frouxidão dos ligamentos, doença que continua ativa ou uso prolongado de calçados apertados, o que acontece em uma parte dos joanetes operados.

5. Dá para operar os dois pés ao mesmo tempo?

Nas osteotomias da frente do pé, principalmente pela técnica percutânea, operar os dois lados juntos é possível porque o apoio é liberado com o sapato especial. Nas do calcanhar e do tornozelo, que exigem semanas sem carga, os pés costumam ser operados em momentos diferentes.

6. O plano de saúde cobre a osteotomia no pé?

Sim. As osteotomias dos ossos do pé e do tornozelo fazem parte da cobertura obrigatória dos planos de saúde e também são realizadas pelo SUS, desde que haja indicação médica documentada com exames.

Conclusão

A osteotomia corta e reposiciona um osso do pé para corrigir deformidades como o joanete, o pé plano e o pé cavo, ou para tirar carga de uma articulação com desgaste parcial, sempre preservando o movimento. A recuperação varia com o local do corte: na frente do pé, o apoio volta nos primeiros dias com sapato especial, e no calcanhar e no tornozelo o pé fica cerca de seis semanas sem carga. Em ambos os casos, o osso cola em seis a oito semanas e a rotina volta entre dois e seis meses.

Se um desvio no seu pé causa dor, calos ou dificuldade para calçar, marque um horário com o Dr. Daniel Baumfeld para medir o alinhamento dos seus ossos e entender se a correção pode ser feita sem abrir mão da articulação.