O raio-x de tornozelo AP e perfil é o exame radiográfico que avalia ossos e alinhamento articular em duas projeções ortogonais a 90°. O AP examina tíbia, fíbula e tálus frontalmente, enquanto o perfil avalia o maléolo posterior, a articulação subtalar e a estabilidade articular sagital.
Após um trauma torcional, uma queda ou uma pancada esportiva, a articulação do tornozelo pode sofrer desde entorses ligamentares leves até fraturas cominutivas com desvio. Por ser uma articulação de carga com tolerância milimétrica a incongruências, a avaliação por imagem precisa ser ágil, metódica e tecnicamente impecável.
Este estudo aprofundado integra o nosso Guia Completo da Anatomia do Pé Humano, conectando a anatomia esquelética descrita em quais são os ossos dos pés à rotina diagnóstica radiográfica e aos critérios clínicos adotados na ortopedia moderna.
Por que São Necessárias Pelo Menos Duas Vistas Radiográficas?

Uma radiografia simples projeta uma estrutura tridimensional do corpo humano em uma imagem bidimensional (plana). Por essa razão, uma regra fundamental da ortopedia é que uma única incidência radiográfica equivale a nenhuma incidência conclusiva.
Uma linha de fratura sem desvio no maléolo posterior ou na fíbula pode ser invisível na projeção frontal (AP) devido à sobreposição óssea, mas salta aos olhos na visão lateral (perfil). Da mesma forma, uma abertura anormal do espaço articular medial pode passar despercebida no perfil, sendo evidente apenas na incidência frontal. A associação ortogonal de AP e Perfil oferece uma visão espacial completa de 360 graus da articulação.
| Incidência Radiográfica | Posicionamento do Paciente | Estruturas Ósseas em Destaque | Principal Utilidade Clínica |
|---|---|---|---|
| Anteroposterior (AP) | Perna estendida, pé neutro a 90°, feixe perpendicular direcionado entre os maléolos. | Maléolo medial, teto da tíbia (pilão tibial), terço distal da fíbula e corpo do tálus. | Identificação de fraturas transversas ou oblíquas do maléolo medial e alinhamento axial geral. |
| Perfil (Lateral) | Decúbito lateral sobre o membro examinado, face externa do tornozelo apoiada no chassi. | Maléolo posterior (Volkmann), articulação tibiotársica sagital, processo posterior do tálus e base do 5º metatarso. | Detecção de subluxações ântero-posteriores do tálus, fraturas do maléolo posterior e fratura da base do 5º metatarso. |
| Mortise (AP Verdadeiro) | Membro estendido com rotação interna da perna e do pé de 15° a 20°. | Espaço claro medial, espaço claro superior e articulação tibiofibular distal sem sobreposição. | Avaliação precisa do espaço articular uniforme de 3 a 4 mm e diagnóstico de abertura da sindesmose. |
1. Incidência Anteroposterior (AP) de Tornozelo: Características Técnicas
Na projeção anteroposterior clássica, o paciente posiciona-se em decúbito dorsal ou sentado na mesa de exame, com a perna estendida e a articulação tibiotársica em posição neutra a 90 graus em relação à perna. O raio central é colimado no ponto médio entre os ápices dos maléolos medial e lateral.
O que o Ortopedista Analisa no Raio X AP?
- Pilão Tibial: A superfície articular horizontal da tíbia deve ser lisa, contínua e sem degraus articulares. Fraturas com afundamento do pilão exigem reconstrução anatômica minuciosa.
- Maléolo Medial: Avalia-se a integridade do osso tibial interno, procurando linhas de fratura verticais (típicas de traumas por adução/inversão) ou fraturas por avulsão horizontal.
- Maléolo Lateral (Fíbula Distal): A ponta e o corpo da fíbula distal são examinados em busca de traços espirais ou oblíquos (muito comuns segundo a classificação de Danis-Weber).
- Sobreposição Tibiofibular Fisiológica: Na incidência AP normal, devido à posição ligeiramente posterior da fíbula, a borda lateral da tíbia cobre parcialmente a fíbula distal (geralmente mais de 10 mm de sobreposição). A perda dessa sobreposição sugere diástase (separação) da articulação.
Para entender o papel de cada estrutura óssea examinada, confira o nosso estudo sobre o tálus e sua anatomia, além dos detalhes biomecânicos da articulação talocrural.
2. Incidência em Perfil (Lateral): Por que Ela é Indispensável?
A incidência lateral ou em perfil é obtida com a face externa do tornozelo e do pé posicionada paralelamente ao filme radiográfico. Essa vista revela o plano sagital do tornozelo, permitindo analisar planos de movimento e eixos de congruência que a projeção frontal não demonstra.
Estruturas Críticas Visíveis no Perfil:
- Maléolo Posterior da Tíbia (Margem Posterior de Volkmann): Fraturas que envolvem mais de 20% a 25% da superfície articular do pilão posterior provocam instabilidade sagital com tendência do tálus deslizar para trás, frequentemente demandando fixação cirúrgica com parafusos.
- Congruência Tíbio-Talar: As curvas concêntricas da cúpula do tálus e da fossa articular da tíbia devem formar arcos perfeitamente paralelos. Qualquer incongruência indica subluxação ou luxação articular.
- Processo Posterior do Tálus e Os Trigonum: Permite diagnosticar fraturas do tubérculo lateral (fratura de Shepherd) ou a presença do osso acessório os trigonum, que pode causar a síndrome do impacto posterior em atletas e dançarinos.
- Articulação Subtalar e Calcâneo: Embora o exame primário seja do tornozelo, o perfil do tornozelo exibe parte do calcâneo e da articulação talocalcânea, auxiliando no rastreio de lesões do retropé.
- Base do Quinto Metatarso: Um dos erros diagnósticos mais frequentes em prontos-socorros é deixar de examinar a base do quinto metatarso no raio-x lateral do tornozelo. Em entorses por inversão, a tração do tendão fibular curto ou sobrecargas podem avulsionar a base do 5º metatarso, provocando fraturas que mimetizam a dor no tornozelo.
3. A Incidência da Mortise (AP Verdadeiro): A Chave da Precisão Articular
Existe uma limitação anatômica natural na incidência AP convencional do tornozelo: o maléolo lateral (fíbula) localiza-se cerca de 15 a 20 graus mais posteriormente que o maléolo medial. Isso faz com que, no raio-x frontal comum, a fíbula se sobreponha à faceta articular lateral do tálus, impedindo a visualização livre do espaço articular naquele ponto.
Para solucionar esse obstáculo anatômico, realiza-se a incidência da mortise (ou incidência com rotação interna). Ao rodar internamente o membro inferior em 15° a 20°, o eixo bimaleolar fica exatamente paralelo ao plano do filme radiográfico.
Parâmetros de Normalidade na Mortise:
- Espaço Articular Uniforme: Todo o espaço livre entre a tíbia, a fíbula e a cúpula do tálus deve apresentar espessura simétrica e constante de aproximadamente 3 a 4 mm.
- Espaço Claro Medial (Medial Clear Space): A distância entre o maléolo medial e a face medial do tálus deve ser estritamente igual ou inferior a 4 mm. Um espaço medial superior a 4 mm indica alargamento da pinça articular e rotura completa do ligamento deltoide, transformando uma fratura aparentemente estável em uma lesão instável com indicação cirúrgica.
- Espaço Claro Tibiofibular: Medido entre a borda posterior da incisura fibular da tíbia e a borda medial da fíbula (deve ser menor que 6 mm). Valores aumentados confirmam lesão da sindesmose tibiofibular.
Para casos com suspeita de alterações de posicionamento do feixe e da perna, consulte o artigo específico sobre posicionamento no raio x de tornozelo e o comparativo sobre as incidências radiográficas do tornozelo.
Quando o Raio X de Tornozelo é Realmente Necessário? (Regras de Ottawa)
Nem todo paciente com entorse de tornozelo necessita ser submetido imediatamente a uma radiografia. Para evitar exposições desnecessárias à radiação ionizante e otimizar o fluxo de atendimento em emergências, ortopedistas utilizam mundialmente as Regras de Ottawa para o Tornozelo (Ottawa Ankle Rules).
A radiografia de tornozelo (série com AP, perfil e mortise) só é formalmente indicada se houver dor na região maleolar associada a pelo menos um dos seguintes achados no exame físico:
- Dor à palpação óssea nos últimos 6 cm da borda posterior ou da ponta do maléolo lateral (fíbula).
- Dor à palpação óssea nos últimos 6 cm da borda posterior ou da ponta do maléolo medial (tíbia).
- Incapacidade de suportar o próprio peso corporal e dar 4 passos completos tanto imediatamente após o trauma quanto no momento da avaliação médica.
Quando a dor localiza-se exclusivamente nos ligamentos anteriores sem dor óssea e o paciente consegue apoiar o pé no chão, o quadro costuma corresponder a uma entorse ligamentar, tratada conservadoramente conforme abordamos em tratamento e tempo de recuperação de tornozelo torcido.
Raio X com Carga (Ortostático) vs. Raio X sem Carga: Qual a Diferença?
Na grande maioria das emergências, o raio-x é realizado com o paciente deitado na maca (sem carga), pois a dor aguda impede o apoio do pé no chão. No entanto, em consultas ambulatoriais especializadas, o raio-x de tornozelo com carga bipodal (em pé) é indispensável.
A descarga do peso corporal sobre a articulação tenciona os ligamentos remanescentes e comprime o espaço cartilaginoso. Esse exame dinâmico permite detectar:
- Diástases Ocultas: Instabilidades da sindesmose que se mantêm alinhadas em repouso mas abrem sob a pressão do peso corporal.
- Artrose e Perda de Cartilagem: Em repouso, o espaço articular pode parecer normal. Sob carga, o contato osso com osso (pinçamento articular) fica evidente, auxiliando no diagnóstico precoce conforme detalhado em nosso guia sobre como identificar a artrose no pé e tornozelo.
- Alinhamento Axial do Membro: Identificação de deformidades em valgo (tornozelo inclinado para dentro) ou varo (inclinado para fora).
O que o Raio X Não Consegue Mostrar?
Apesar de sua enorme utilidade para o arcabouço ósseo, o raio-x convencional utiliza radiação que atravessa tecidos moles sem gerar contraste suficiente. Dessa forma, o exame radiográfico não visualiza diretamente:
- Ligamentos do tornozelo (ligamento talofibular anterior, calcaneofibular e ligamento deltoide).
- Tendões (tendão de Aquiles, tendões fibulares e tendão tibial posterior).
- Lesões osteocondrais precoces e edema ósseo por contusão medular (visíveis com precisão na ressonância magnética do tornozelo).
- Derrames articulares inflamatórios e espessamentos sinoviais (avaliados de forma dinâmica no ultrassom de tornozelo).
Se o seu raio-x não apontou nenhuma fratura, mas você continua com inchaço persistente, instabilidade ao caminhar ou sensação de falseio após 3 a 4 semanas do trauma, é essencial investigar lesões ligamentares e condrais por meio de exames complementares avançados.
Perguntas Frequentes
1. Qual a diferença entre o raio x de tornozelo AP e o raio x em perfil?
O raio x AP (anteroposterior) projeta a imagem de frente para trás, permitindo analisar os maléolos medial e lateral e o pilão tibial em sua largura. Já o perfil (lateral) projeta o feixe em ângulo de 90 graus (de lado), avaliando o maléolo posterior, a inclinação sagital do tálus e o alinhamento ântero-posterior da articulação.
2. O que significa a incidência de Mortise no tornozelo?
A incidência da mortise é uma variação da projeção frontal na qual a perna e o pé sofrem rotação medial (interna) de 15 a 20 graus. Essa manobra desfaz a sobreposição normal da fíbula sobre a tíbia e o tálus, permitindo avaliar o espaço articular livre em toda a sua extensão e verificar se a sindesmose está íntegra.
3. É necessário tirar o gesso ou a bota imobilizadora para fazer o raio x?
Na maioria dos acompanhamentos pós-trauma e pós-operatórios, as primeiras radiografias de controle são realizadas com o próprio gesso ou com a bota ortopédica para não mobilizar uma fratura recente. O aparelho de raio-x possui penetração suficiente para atravessar o gesso e a fibra de vidro, embora a retirada do imobilizador possa ser solicitada pelo médico quando é necessária uma imagem de máxima nitidez das trabéculas ósseas.
4. O raio x de tornozelo emite muita radiação? É perigoso?
A dose de radiação emitida em um exame radiográfico de extremidades como o tornozelo é extremamente baixa (cerca de 0,001 mSv), o que equivale a menos do que a radiação cósmica de fundo a que qualquer pessoa é exposta naturalmente em apenas um ou dois dias no meio ambiente. Trata-se de um procedimento seguro e com benefício diagnóstico imensamente superior aos riscos.
5. Se o raio x deu normal, por que meu tornozelo ainda dói e incha tanto?
O raio x avalia exclusivamente a integridade dos ossos. Em entorses moderadas e graves, ocorrem roturas parciais ou totais de ligamentos (como o talofibular anterior e calcaneofibular), edema da medula óssea (bone bruise) e lesões da cartilagem articular. Todas essas condições causam dor intensa e inchaço volumoso, mas não aparecem nas radiografias simples, demandando avaliação ortopédica minuciosa e ressonância magnética.
Conclusão
O raio x de tornozelo AP e perfil permanece como a pedra fundamental da propedêutica ortopédica em lesões do membro inferior. Quando executado com técnica rigorosa e interpretado em conjunto com a história clínica e o exame físico, ele fornece informações decisivas sobre o alinhamento da pinça articular, a estabilidade das corticais ósseas e a necessidade de imobilização conservadora ou reconstrução cirúrgica anatômica.
Se você sofreu uma entorse, sofreu uma pancada no tornozelo, tem dificuldade para pisar no chão ou apresenta dor e inchaço persistentes que não melhoram com repouso, não hesite em buscar uma avaliação médica especializada. Um diagnóstico precoce evita a consolidação incorreta de fraturas e previne a instabilidade crônica da articulação.
Para avaliar o seu exame radiográfico, obter um diagnóstico detalhado e planejar o tratamento mais adequado e seguro para o seu caso, entre em contato e agende sua consulta com o Dr. Daniel Baumfeld,